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Acessibilidade à cultura cinematográfica para crianças, adolescentes e adultos foi um dos grandes destaques no Circuito Penedo de Cinema

Thiago Santos de Oliveira é tradutor intérprete de Libras há 10 anos; ele, que trabalha no Circuito Penedo de Cinema desde o ano passado, se revelou satisfeito em participar (Foto – Fernando Brandão)

Cinema de graça, na praça e para todos. Todos mesmo! Um dos grandes destaques da programação do Circuito Penedo de Cinema deste ano foi a oferta de acessibilidade à cultura cinematográfica. Com o serviço de dois Tradutores Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras), a comunidade surda teve a chance de participar e assistir a todos os filmes exibidos durante as Mostras de Cinema Infantil e Velho Chico de Cinema Ambiental.

O holofote e o lugar cativo bem próximo à tela do cinema indicavam que os profissionais responsáveis por trazer a acessibilidade estavam ali para um aquelas pessoas que, naquele momento, se uniam ao público geral e se tornavam um só na Sala de Exibições montada na Praça 12 de Abril. Assim, o local ficou pequeno para todas as crianças, adolescentes e adultos que ali passaram e se divertiram com a variada programação de filmes em cartaz.

Foi o caso da Cícera Manuela da Silva. A estudante de Libras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) assistiu aos filmes da Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental na última quarta-feira (8), o primeiro dia da programação. Tímida, ela declarou ter adorado participar e completou dizendo que se sentiu muito bem no local. “A questão das interpretações [simultâneas], eu gostei bastante. Eu acho muito bom. É necessário ter a presença do intérprete. Fico feliz em estar aqui e participar”, ressaltou.

Claudineide Peixoto dos Santos participou pela segunda vez do Circuito Penedo de Cinema e aprovou os filmes exibidos (Foto – Paulo Accioly)

Ao lado da amiga Cícera Manuela, a Claudineide Peixoto dos Santos também esteve ligadinha nos filmes da Mostra Velho Chico. Com olhar atento ao tradutor, compreendia a verdadeira mensagem que os filmes queriam passar. E, ao final das exibições, também conversou com a reportagem. “É a segunda vez que participo, foi muito bom. Avalio essa inclusão como muito boa, importante, eu gosto demais daqui e pretendo voltar outras vezes sim”, vibrou.

Quem também defendeu a inclusão no Circuito foi o Hermano Paulino Santos. Presente no evento pela terceira vez, ele lembrou de quando pisou no cinema pela primeira vez – mais precisamente há 3 anos no então Festival de Cinema Universitário de Alagoas – e frisou a importância da acessibilidade para o entendimento dos surdos.

“É muito importante que os surdos entendam, tenham essa acessibilidade para ter o entendimento. Esse aprendizado é maravilhoso. Os intérpretes têm uma habilidade incrível, eu gostei bastante. E a gente também, nos sinais, interagindo, foi muito bom. Vi cinema pela primeira vez aqui, quando teve a edição no Teatro, acho que há 3 anos, mas eu também me lembro a questão dos filmes, a temática ambiental, enfim. E pretendo continuar, eu gosto bastante. É ótimo, excelente!”, destacou, orgulhoso.

O reconhecimento à tradução simultânea

Clezia e Thiago participam do Circuito Penedo de Cinema desde a edição de 2016; eles comemoram a  (Foto – Paulo Accioly)

A entrevista com Cícera, Claudineide e Hermano foi possível por conta da tradução simultânea realizada pelos profissionais que trabalham para o Circuito Penedo de Cinema, Thiago Santos de Oliveira e Clezia Dionísio Silva. Para Thiago, que atua nessa área há 10 anos e participa do evento desde a edição passada, em 2016, é extremamente importante que um evento dessa magnitude preze pelo caráter da inclusão. “A comunidade em si fica muito alegre de saber que o Circuito se adequa a acessibilidade, isso é muito bom”, completou.

O tradutor disse se sentir bastante satisfeito em poder participar do evento e que, às vezes, no final das contas, se diverte um bocado. “É muito legal participar, eu gosto muito, inclusive dos filmes que passam. Como a gente precisa interpretar, é ideal ter o conhecimento antes, então, em casa, analiso os filmes e me divirto em alguns deles. Por exemplo, quando é a Mostra infantil, é muito legal. Essa interação com os surdos, passar o conteúdo do filme pra eles, é bastante engraçado. As pessoas até riem, mas é uma satisfação fazer isso”, declarou Thiago, entre risos.

Claudineide e Cícera Manuela fizeram questão de registrar a presença no Circuito Penedo de Cinema (Foto – Paulo Accioly)

Também presente pelo segundo ano no Circuito, a Clezia Dionísio ressaltou que o evento levantou e abraçou a bandeira da inclusão. “Independente do espaço ou do ambiente, essa é a nossa luta – seja como profissionais ou como integrantes da comunidade surda. O Circuito é um evento de grande porte e ter a presença do intérprete, proporcionar ao surdo esse ambiente, esse aprendizado, essa vivência, é muito importante. Espero que nas próximas edições o evento continue incluindo a comunidade surda”, disse.

Eles se sentem incluídos na sociedade”

A professora da Unidade de Penedo da Ufal, Josiane dos Santos, é a responsável por essa iniciativa. Desde 2015, ela se mostra envolvida com a programação das duas mostras e levanta a bandeira da inclusão. E, em especial, no ano passado, foi realizada a primeira experiência voltada ao público surdo com a interpretação simultânea. “Eles diziam: a gente está entendendo o filme, isso é muito bom”, disse a professora, que continuou: “Eu defendo a inclusão e trazê-la para o Circuito é uma forma de mostrar a Ufal e o que desenvolvemos em sala de aula. Para os graduandos, é um momento de interação e para a comunidade surda é uma forma de estarem sendo incluídos na sociedade”, disse ela.

A pequena Izadora Andrade, de apenas 5 anos, veio pela primeira vez à Mostra de Cinema Infantil (Foto – Paulo Accioly)

Quem reafirma a fala da professora é a tradutora Clezia Dionísio. “A aceitação deles é maravilhosa. Até pouco tempo antes do evento, meses antes, no caso, eles já começam a perguntar: e aí, nós vamos de novo, ver os filmes? Então eles ficam super animados, passam o feedback pra gente, isso é muito legal”, complementou.

E como estamos falando de inclusão, não poderíamos deixar de lado a presença da Izadora Andrade, de apenas 5 anos. Trazida pelo pai, Eron Ramos dos Santos, a pequena teve, pela primeira vez, no Circuito Penedo, a experiência de se sentir dentro de uma sala de cinema. Como ela estava tímida, conseguiu apenas sorrir dizendo que gostou dos filmes, mas seu pai conversou com a nossa equipe de reportagem. Para ele, a estreia foi com o pé direito.

“A questão do cinema pra ela é algo novo, de poder interagir com outras crianças e sem falar que os filmes trazem cultura, ensinam cores, conhecimento, são conteúdos que trazem conhecimento, não são quaisquer desenhos. Então, é muito importante, tanto para ela quanto pras outras crianças, que o fato de ela estar numa cadeira de rodas não faz ela diferente das outras, mas sim, que ela é uma criança igual à qualquer outra”, disse Eron.

Hermano Paulino Santos revelou ter sentido na pele o drama dos personagens dos filmes exibidos na Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental; ele também parabenizou o trabalho dos intérpretes (Foto – Paulo Accioly)

A professora Joseane dos Santos aproveitou para reafirmar que o Circuito Penedo de Cinema tem uma programação diversificada e que visa atender a todos os públicos. “Quando falamos em diversidade não podemos esquecer dos surdos e das pessoas com deficiências. Algumas dessas pessoas nunca foram ao cinema, e quando vão, o filme não tem legenda nem intérprete. Para eles é como assistir a um filme ‘mudo’. Então, disponibilizar o intérprete de Libras nas mostras é permitir que os surdos entendam o que os personagens falam nos filmes, é trazer Cultura a essa comunidade, é promover a inclusão”, disse ela.

Foi o que aconteceu com Hermano, que revelou ter sentido na pele o drama dos personagens dos filmes exibidos na programação da Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental. “Eu tive o sentimento de que eu estava vendo a dor das pessoas e era como se eu tivesse sentindo aquilo, parece que era comigo. Foi uma identificação que todo mundo precisa sentir isso”, declarou.

O Brasil parou pra pensar e discutir sobre o tema”, dizem especialistas sobre a redação do Enem 2017

Professora Joseane dos Santos, da Unidade de Penedo da Ufal, participa ativamente do Circuito desde 2015 e reforça a importância desse trabalho de inclusão (Foto – Paulo Accioly)

No último domingo (5), foi realizada a primeira etapa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2017 e a redação teve como tema Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil. A prova apresentou alguns motivadores diferentes: um deles mostrou um trecho da Constituição Federal reafirmando que todos têm o direito à educação; outro apresentou a quem fazia o Enem que uma lei do ano de 2002 determinou que Libras se tornasse a segunda língua oficial do Brasil.

Por fim, um terceiro ponto apresentado aos candidatos incluiu dados sobre o número de alunos surdos presentes na educação básica entre os anos de 2010 e 2016. A professora Joseane dos Santos revelou ter ficado bastante contente com esse tema. Para ela, no geral, os direitos da comunidade surda vêm sendo negados, pois eles acabam sendo tratados como invisíveis em algumas escolas.

“Discutir inclusão é um tema da atualidade e, nos últimos anos, o Enem tem abordado os direitos humanos. Em toda cidade há surdos, mas eles são tratados como invisíveis: o professor finge que não tem um aluno surdo. E os alunos fingem que não têm um colega surdo durante anos. Por isso não é um tema novo, mas um tema necessário. Então, precisamos – todos, inclusive os estudantes – parar pra pensar em práticas efetivas de inclusão das minorias. O MEC [Ministério da Educação] fez o Brasil parar e enxergar os surdos”, salientou.

Já na opinião de Clezia Dionísio, a temática foi uma vitória para a comunidade surda do Brasil. “Os estudantes pararam um pouco pra pensar: e aí, meu colega surdo? Ou que talvez você conheça algum surdo e nunca parou pra falar com ele e muito menos chegou a pensar em como é, para ele, o sistema educacional. Será que está tendo inclusão? Então, isso trouxe para todos os estudantes a perspectiva da realidade da comunidade surda e fazê-los parar pra pensar e discutir sobre o assunto foi uma vitória pra gente”, comemorou a tradutora.

Deriky Pereira – Ascom Circuito

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